Home / Decor  / Coluna do Victor Moreira Leite: Bastidores do design brasileiro

Em meio a tantas adversidades, nós brasileiros seguimos provando que temos o nosso próprio “way to do”. Informalidade, descumprimento de prazos e briefings mal elaborados fazem parte da rotina agitada dos pequenos e médios empresários no país. Uma rotina que causaria estranheza a qualquer europeu, concordam? Felizmente, o trabalho flui e tudo entra em sintonia – algo necessário.Aos poucos, os novos arranjos e adaptações vão encontrando o caminho da formalidade.

Após anos de atuação nessa área, finalmente percebo que exceções e raridades tornaram-se obrigações. Ecologia, design, marketing, preocupações sociais… Nosso mercado amadureceu e entra numa nova fase. Arquitetos, designers, artistas, fabricantes e lojistas finalmente se unem em prol de um objetivo comum.

Ao longo da minha vivência como curador, pude presenciar alguns perfis ousados que se arriscaram de maneiras diferentes para inserir o design e o designer no mercado, a começar pelo empresário Sergio Buchpiguel, que criou a Dpot, uma marca focada inteiramente na persona do designer brasileiro quando ninguém se interessava pelos criadores locais.

Esse projeto foi, sem dúvida, um catalizador que deu o amparo necessário para a consolidação de grandes nomes do design brasileiro, o que, por consequência, despertou a atenção de outras marcas do segmento que começaram a se aventurar num nicho até então pouco explorado.

Essa iniciativa teve desdobramentos que nem o próprio empresário poderia prever: contribuiu de forma relevante e definitiva para a valorização de nomes como Jader Almeida e na formação de profissionais como a curadora Milla Rodrigues que, como eu, voltaram-se para auxiliar no reposicionamento estratégico dos produtores nacionais. Em poucos anos, o que era um diferencial para poucos, tornou-se regra absoluta.

Foto: SOLLOS – Jader Almeida

Esse movimento me inspirou a seguir numa linha similar com alguns fabricantes de alta performance que encontravam-se na busca pelo enobrecimento de suas respectivas marcas. Um cenário que prevê resultados no longo prazo: todos os acordos comerciais e o direcionamento para escolher os players de forma assertiva em busca de uma relação de confiança, assumindo riscos conjuntos desde a indústria até a revenda. Essa ascensão das indústrias instigou muitos designers, gerando uma rápida aderência de profissionais ao segmento, trazendo uma safra de criadores inexperientes para o mercado. Pequenos produtores tentaram, alguns se profissionalizaram, enquanto outros não conseguiram atender as altas demandas.

Wentz

Atualmente observo um amadurecimento em todos os players desse segmento: designers passam a entender o caminho a ser percorrido e entendem que podem aliar-se aos fabricantes visando maior abrangência. Vale ressaltar o grupo dos que persistem em avançar com as suas marcas próprias; um movimento árduo de longo prazo, louvável quando bem aplicado.

Junto da efetividade dos acordos comerciais, aos poucos o lojista perde o medo de divulgar o seu fornecedor, que passa a ganhar visibilidade nacional e internacional. Aparentemente, estamos acompanhando o início do que arrisco intitular como a real ascensão do design de mobiliário de alta linha produzido no Brasil, começando a ser posicionado em pé de igualdade com as grandes marcas internacionais.

Um mercado jovem e muito promissor, o qual observo – curioso – pelos próximos desdobramentos de uma frente cujo potencial está prestes a tornar-se uma das principais do país nos próximos anos.

Victor Leite é Designer de produto e Curador de grandes marcas do segmento de alta decoração, criou diversos móveis ao longo da sua passagem pelo Studio Tri Design e atualmente segue como sócio da Mollde Consultoria. Dedica sua carreira reposicionando marcas no mercado, atuando na estratégia de comunicação, branding, desenvolvimento de produtos e apresentação de novas coleções.

patriciazzanotti@gmail.com

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